Cleverson Lima

Ela morreu!
Minha vizinha.
Ela morreu!
Bombeiros, Televisão, muitas pessoas e pessoas, e eu não ouvi nada. Ela morreu de manhã e eu fiquei sabendo a noite.
Nunca conversei com ela direito. Ela era daquelas donas de casa que fazem as obrigações diárias e quando tem a oportunidade, conversam com os vizinhos. Era o que aparentava. Mas eu raramente ficava em casa, minhas horas de conversa com vizinhos se resumiam a “- Oi – Tchau”.
Ela não era uma má pessoa (aos meus olhos). Tentava ser prestativa sempre. Pegava minhas correspondências, e era engraçado nessas ocasiões, pois parecia que estava sempre atenta a minha chegada para entregar o que o correio trazia. Às vezes, também, me informava algo como: “Eu vi uns piás olhando a sua casa, anotaram o número, acho que vão querer roubá-la”. Mas nossas conversas no geral, não se estendiam, mais que um “_ Oi. Tudo bem, e você? Que bom. Até. Obrigado”. Uma vez apenas que nossas palavras extrapolaram o “limite”, ela me elogiara com admiração, por eu ser muito trabalhador e muito estudioso (era a visão dela) aparentou gostar da ideia de um dia os filhos irem para a faculdade, “eu falo com eles, mas eles não querem”. Não lembro o final da conversa. Não dei muita importância, era só uma conversa de portão. Era só uma conversa de portão.
Uma vez ela me trouxe uma daquelas fotos reduzidas (não lembro o nome certo do estilo). Era (a foto) armazenada em um aparelhinho com lente de aumento para visualizá-la. “Você consegue arrumar? É de quando eu era criança.” disse ela. “Scaniei” e melhorei o máximo que pude no photoshop, entreguei em um CD, ela segurou como algo especial. Passado algum tempo, descobri que há um jeito de recuperar aquele tipo de foto, diferente do que eu fiz. Pensei em contar para ela.
Pensei.

A sua casa geralmente tem som de Rap. Hoje tem som de silêncio.

Sobre o Autor:

Cleverson de Lima Cleverson é especialista em design e etc. Só.
27 de novembro de 2015
portao11

Era só uma conversa de portão

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